Alphonse Daudet (1840–1897), natural da França, foi um dos grandes romancistas e contistas do século XIX. Embora tenha convivido com os gigantes do naturalismo (como Émile Zola e Flaubert), Daudet desenvolveu um estilo próprio, marcado por uma ironia afetuosa, um lirismo melancólico e uma profunda ligação com a sua região natal, a Provença, no sul da França. Ele possuía um talento ímpar para capturar a alma interiorana, as paixões exageradas e a ingenuidade do povo provinciano, sempre escrevendo com uma prosa leve, pitoresca e de leitura extremamente agradável.
Publicada em 1872, Tartarin de Tarascon (ou As Aventuras Prodigiosas de Tartarin de Tarascon) é uma das maiores obras-primas do humor na literatura europeia. O livro é uma sátira deliciosa que dialoga diretamente com o espírito de Dom Quixote. O protagonista, Tartarin, é um burguês pacato da pequena cidade de Tarascon que, influenciado por livros de aventuras, cria para si mesmo a fama de ser um caçador de leões implacável e um herói destemido — embora nunca tenha saído de casa.
Quando a pressão da cidade o obriga a provar suas histórias, Tartarin parte para a Argélia em uma expedição de caça absurdamente cômica. O romance é uma crítica brilhante à bravata, ao exagero provinciano e à ilusão burguesa.
Denis Diderot (1713–1784), natural da França, foi um dos mais geniais e subversivos filósofos do Iluminismo, célebre por ter sido o principal organizador e redator da colossal Encyclopédie. Muito além de um compilador de conhecimento, Diderot era um livre-pensador radical, um materialista convicto e um crítico feroz da religião, do absolutismo e da moralidade conservadora. Sua mente era inquieta, dialética e assistemática, o que o levava a escrever obras filosóficas disfarçadas de romances, diálogos e peças teatrais que muitas vezes desafiavam a censura e só puderam ser publicadas postumamente.
Escrita entre 1761 e 1774, mas publicada pela primeira vez apenas em 1805 (e graças a uma tradução de Goethe), O Sobrinho de Rameau é uma das peças filosóficas mais brilhantes e desconcertantes do século XVIII. A obra é estruturada como um diálogo intenso em um café parisiense entre o narrador "Eu" (o próprio Diderot, representando o filósofo racional e moral) e "Ele" (Jean-François Rameau, sobrinho de um famoso compositor da época).
O sobrinho é um boêmio falido, cínico, amoral e um parasita social que sobrevive bajulando os ricos. No entanto, através dessa figura desprezível, Diderot expõe a hipocrisia de toda a sociedade iluminista. Com uma lógica implacável, o sobrinho desconstrói a moral burguesa, provando que o mundo real é movido pelo interesse, pela mentira e pelo dinheiro, deixando o filósofo "Eu" (e o leitor) sem chão.
Tartarin de Tarascon (Daudet) / O Sobrinho de Rameau (Diderot)
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