Homero (cuja existência é tradicionalmente datada por volta do século VIII a.C.), natural da Grécia Antiga, é o patriarca incontestável de toda a literatura ocidental. A tradição o consagra como um aedo (poeta-cantor) cego que viajava pela Hélade recitando versos. Se ele foi um homem único ou o nome dado a uma longa tradição oral de poetas que compilaram mitos esparsos (a famosa "Questão Homérica"), pouco importa para a magnitude de sua obra. Os épicos homéricos funcionaram como a grande enciclopédia moral, religiosa e histórica da Antiguidade, moldando os ideais de heroísmo, honra, destino e humanidade que sustentam o pensamento do Ocidente até hoje.
Estas duas epopeias formam o díptico perfeito da experiência humana na Antiguidade:
A Ilíada: É o épico da força, da tragédia e da guerra. O poema não narra toda a Guerra de Troia, mas foca em um episódio cirúrgico no décimo ano do cerco: a "Fúria de Aquiles". A obra disseca o orgulho ferido, a bravura implacável, o peso da mortalidade e a intervenção caprichosa dos deuses nos destinos humanos.
A Odisseia: É o épico da inteligência, da sobrevivência e da saudade. Narra a jornada de dez anos de Odisseu (Ulisses) tentando voltar para sua casa na ilha de Ítaca, e para sua esposa Penélope, após a queda de Troia. Odisseu não vence pela força bruta de Aquiles, mas pela mêtis (astúcia e lábia), enfrentando monstros, bruxas e tempestades divinas. É o arquétipo definitivo da "jornada do herói".
Existem excelentes traduções de Homero no Brasil (como as de Haroldo de Campos, Trajano Vieira ou Christian Werner), mas a versão de Carlos Alberto Nunes (1897–1990) ocupa um lugar sagrado e exclusivo na bibliografia nacional.
Médico, escritor e helenista maranhense, Nunes foi responsável por uma verdadeira proeza titânica: traduzir a Ilíada, a Odisseia e a Eneida de Virgílio diretamente dos originais, além da obra completa de Platão. No caso de Homero, a ambição de Nunes não foi apenas traduzir o sentido das palavras, mas recriar a musicalidade da obra original.
Para isso, ele adotou uma solução estética radical: verteu os épicos tentando simular o hexâmetro datílico (o metro rítmico original da poesia grega) para o português. O resultado é um texto de cadência hipnótica, com versos longos (geralmente de 16 sílabas poéticas) que obrigam o leitor a entrar no "canto" do bardo antigo. Ler a tradução de Nunes é a experiência mais próxima que um leitor lusófono pode ter de ouvir a declamação original da Grécia Antiga.


