O pseudônimo Janus ocultava, na verdade, um grupo de intelectuais e teólogos católicos alemães, liderados primariamente por Johann Joseph Ignaz von Döllinger (1799–1890), com a estreita colaboração de Johannes Huber e Johannes Friedrich. Döllinger foi um dos mais formidáveis e respeitados historiadores da Igreja Católica no século XIX. Professor em Munique, ele possuía uma erudição monumental, mas entrou em rota de colisão frontal com o Vaticano ao se opor de maneira inflexível à centralização do poder em Roma e ao avanço da corrente ultramontana. Quando o Papa Pio IX convocou o Concílio Vaticano I (1869–1870), Döllinger tornou-se a voz máxima da resistência intelectual contra as novas diretrizes absolutistas da Igreja. Sua firmeza em defender a verdade histórica acima da conveniência eclesiástica acabou lhe custando a excomunhão, mas o consagrou como um dos grandes defensores da liberdade de consciência no pensamento religioso.
Publicada originalmente na Alemanha em 1869 (Der Papst und das Concil), às vésperas do Concílio Vaticano I, a obra é um ataque erudito e devastador ao dogma da Infalibilidade Papal, que estava prestes a ser aprovado. Utilizando um arsenal inesgotável de documentos históricos, "Janus" demonstra que a infalibilidade e a jurisdição absoluta do papa não possuíam raízes nos primeiros séculos do cristianismo, sendo construções políticas forjadas ao longo da Idade Média, muitas vezes com base em fraudes documentais famosas (como as Falsas Decretais).
No entanto, o que confere a este título um status de raridade e imenso peso histórico na língua portuguesa é o trabalho de Ruy Barbosa, publicado no Brasil em 1877.
Em meio à efervescência da "Questão Religiosa" no Império Brasileiro — um grave conflito diplomático e político entre o Estado (liderado por D. Pedro II) e bispos ultramontanos que obedeciam cegamente a Roma —, um jovem Ruy Barbosa, aos 28 anos, assumiu a tradução do livro. Ele não entregou apenas uma versão em português; ele produziu uma Introdução colossal que, para o contexto nacional, tornou-se tão importante quanto a própria obra alemã.
Nesta introdução de fôlego impressionante, Ruy Barbosa transformou a pesquisa teológica de Janus em um manifesto fulminante para a realidade brasileira. Ele desfere um golpe retórico contra o obscurantismo, defendendo com vigor a liberdade de pensamento, o Estado laico, a separação entre Igreja e Estado e a supremacia das leis civis sobre os ditames religiosos. É um documento espetacular onde a precisão da historiografia germânica se alia à prosa afiada e vulcânica do maior jurista do Brasil, resultando em uma obra de referência obrigatória para o estudo do liberalismo e da história política do século XIX.
O Papa e o Concílio, Janus (Versão e introdução de Ruy Barbosa)
Autor: Janus
Editora: Saraiva
Ano de publicação: 19320
Especificações: Bom estado de conservação
Encadernação: Capa Dura
Estado: 5/5


